A 13ª Assembleia Geral Ordinária do
Sínodo dos Bispos está revelando um consenso geral sobre a necessidade
de promover uma nova evangelização. Mas as implicações dessa ação da
Igreja nem sempre são compreendidas da mesma maneira, dependendo do
contexto histórico, sócio-cultural e religioso de cada Continente e país
onde a Igreja atua. Nesta entrevista concedida ao jornal
O São Paulo, o cardeal Odilo Scherer trata de algumas questões são fundamentais para a nova evangelização e a transmissão da fé.
O SÃO PAULO – Por que é necessária uma nova evangelização?
Antes
de tudo, porque a Igreja é missionária por sua própria natureza e ela
não poderia nunca deixar de evangelizar; hoje, isso precisa ser feito de
formas novas, tendo em vista as grandes mudanças pelas quais o mundo
passa, as formas diversas como as pessoas olham a vida, os valores que
as orientam, como se relacionam entre si e como expressam a própria
busca religiosa.
OSP - Que fatores adversos a missão evangelizadora da Igreja encontra hoje?
São
vários, mas vou destacar alguns, que decorrem da evolução do pensamento
filosófico dos últimos séculos e também do desenvolvimento tecnológico
atual. A secularização trouxe consigo o secularismo, que exclui Deus do
mundo e da vida humana; Deus é visto por muitos como supérfluo,
desinteressante para as pretensões humanas e até um atrapalho para a
felicidade humana. Além disso, pretende-se que o mundo se explica por si
mesmo. Mas também há o individualismo, que coloca o indivíduo no centro
de tudo, como se o homem fosse o seu próprio “deus”... Daí decorre o
subjetivismo, que não reconhece verdades “externas” ao sujeito; com
isso, nega-se a possibilidade de ter noções comuns sobre o ser humano,
por exemplo, e de princípios éticos comuns. Cada um “é” a própria
verdade. Evidentemente, o Cristianismo, que tem sua base na revelação
divina, não encontra espaço nesse estado de espírito.
OSP – A religião deixou de interessar ao homem de hoje?
Certamente
não, tendo em vista a abundância de propostas religiosas e o constante
surgimento de novas. Isso demonstra que o ser humano, no fundo, está à
procura de Deus. Mas é preciso examinar as muitas buscas religiosas; por
vezes, também elas trazem uma forte marca de individualismo e
subjetivismo, estando mais centradas no próprio sujeito, na satisfação
de suas necessidades e anseios imediatos, ou de seus sonhos para a vida
neste mundo, do que numa relação com o Deus sobrenatural, transcendente e
pessoal. Com dificuldade, aceita-se falar na verdade sobre Deus e o
homem, ou sobre a adoração e a obediência devidas a Deus. Mas aceita-se
bem uma religião “útil”, que ajude a resolver os problemas do dia a dia;
os critérios da eficácia e da utilidade, muito comuns na cultura
tecnicista e mercadológica, também estão presentes nessa nova
religiosidade. Mas consistiria nisso a verdadeira religião?
OSP – E em que consiste a verdadeira religião?
Antes
de tudo, na aceitação de Deus, como Deus, e da nossa condição de
“não-Deus”, ou seja, de criaturas. Esse é o primeiro ato de fé, do qual
decorrem a adoração e o louvor a Deus; hoje tem-se dificuldades para
aceitar a “criaturalidade”, por causa de certa pretensão de onipotência
humana. Segue a busca da verdade sobre Deus, que passa pelo “ouvir” a
Deus, de muitas formas, ajudados pelas capacidades humanas. Vem, então, o
desejo de comunhão e sintonia com Deus, para expressar na vida a
dignidade e a beleza dessa relação pessoal com Deus, que no Cristianismo
se traduz numa relação familiar, de pai para filho e de filho para pai;
ao mesmo tempo, numa relação de fraternidade e respeito para com os
demais homens, também filhos de Deus, e no apreço e respeito por toda
obra de Deus.
OSP – É comum ouvir
dizer que “toda religião é boa” e que todas elas levam para Deus do
mesmo modo. Isso é verdadeiro, ou a nova evangelização precisa também
fazer uma crítica da religião?
Sim, no sentido de um
“exame crítico” das formas de religiosidade e de religião. Mesmo se
devemos respeitar profundamente a consciência e as escolhas religiosas
de cada pessoa, objetivamente, não se pode dizer que todas as religiões
são iguais. É só examinar o que cada uma afirma sobre Deus, o ser
humano, as relações do homem com Deus, com o próximo e com o mundo, a
moral, as realidades sobrenaturais e eternas e o fim último do homem. As
diferenças são muito grandes. Cada pessoa precisa ser estimulada a
buscar a verdade, para responder sinceramente ao anseio profundo de
verdade e de sentido que há no coração humano, sem se contentar apenas
com o que mais agrada, o que é mais fácil e o que tem efeito mais
imediato e verificável.
OSP – Portanto, a nova evangelização passa por uma renovada reflexão sobre o homem?
Sim,
esta é uma das questões cruciais; falar de Deus é também falar do homem
e o Cristianismo não o faz apenas como mera ilustração do pensamento. A
fé cristã diz diretamente respeito ao ser humano e, sem levar isso em
conta, não se consegue propor ao homem de hoje a novidade do Evangelho. O
Papa João Paulo II repetiu em várias ocasiões o que já estava na
Gaudium et Spes: “no seu Filho Jesus Cristo, Deus revelou plenamente ao
homem a verdade sobre o homem”. A fé cristã é “boa notícia” para o
homem!
OSP – Em poucas palavras, em que consiste a nova evangelização?
É
difícil definir a nova evangelização, pois ela é um processo, e não um
“objeto” já pré-estabelecido. Da parte da Igreja, ela consiste, antes de
tudo, em acolher de forma renovada a graça do Evangelho e de se fazer
discípula e missionária fiel de Cristo; consiste em expressar isso, de
forma alegre e corajosa, nas muitas formas de sua própria vida, ação e
representação simbólica; e consiste em compartilhar essa Boa Nova com o
mundo, também de muitas maneiras, quer pelo diálogo cultural,
inter-religioso e ecumênico, quer pelo testemunho de presença e
proximidade para com todo ser humano, especialmente os que sofrem mais;
consiste no empenho para edificação do mundo “como Deus quer”, na
justiça, solidariedade e respeito. Mas também é anúncio renovado do
Evangelho, de forma explícita, convidando à fé em Cristo e à
participação na vida eclesial. A Igreja tem muita riqueza espiritual
para partilhar com a comunidade humana; mesmo respeitando e apreciando
as contribuições vindas de outras fontes, ela mesma precisa dar sua
contribuição, a partir de sua experiência, sem medo da contradição,
sabendo que tem muito de bom para partilhar.
OSP – Qual está sendo a contribuição da Igreja no Brasil e na América Latina para o Sínodo?
Penso
que seja uma contribuição apreciável. O Documento de Aparecida foi
citado muitas vezes no Plenário do Sínodo e até mesmo distribuído, numa
tradução italiana. A reflexão e a experiência já feitas na América
Latina sobre a nova evangelização serão importantes para a Igreja
inteira.