Graciela Fernández Meijide, ex-ministra de Desenvolvimento Social da
Argentina, ativista dos direitos humanos e membro da Comissão Nacional
do Desaparecimento de Pessoas (Conadep), afirmou nesta terça-feira (19)
que o Papa Francisco "nunca esteve envolvido com a ditadura".
Em entrevista à Efe, Graciela, mãe de um jovem desaparecido durante a
última ditadura e ministra entre 2000 e 2002 do governo do presidente
Fernando de la Rúa, explicou que conheceu pessoalmente o cardeal Jorge
Mario Bergoglio em sua etapa como ministra porque colaborou em um
"trabalho social muito amplo" que era promovido pelo arcebispado.
"É um homem muito inteligente, muito disposto a escutar. Eu não sou
católica, sou batizada, mas me considero ateia e ele sabia, é um homem
muito sensível ao sofrimento da pobreza", disse Graciela.
Graciela Meijide se destacou como ativista pelos direitos humanos
depois que seu filho, um estudante de 17 anos, desapareceu em uma
operação clandestina da ditadura militar argentina.
Sobre o papel que o cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco, teve na
ditadura argentina, Graciela Fernández afirmou que fala com conhecimento
de causa porque ocupou "um papel protagonista em organismos de direitos
humanos e na Conadep, e nunca tive nenhum testemunho que o envolvesse
com algo relacionado com a ditadura. Jamais".
Graciela Fernández viajou para Barcelona, na Espanha, para participar
de um ato da Casa América organizado pelo Ministério de Cultura da
Cidade de Buenos Aires dentro do programa "30+30, um olhar de futuro",
no qual analisará a experiência democrática argentina nos últimos 30
anos e suas perspectivas.
A ex-ministra argentina, apesar de não ser religiosa, felicitou a escolha do cardeal argentino como novo Papa.
"Sei como o povo argentino e toda América Latina festejou esta
designação, todo o continente está contente", afirmou Graciela, que
desejou sorte a seu compatriota porque "foi convocado para uma tarefa
que deve ser ciclópica, porque os problemas da Igreja são tantos que
inclusive fizeram um Papa renunciar', disse, em alusão ao agora Papa
Emérito Bento XVI.
A ativista pelos direitos humanos explicou que, segundo as últimas
enquetes, "92% dos argentinos festejaram a escolha do cardeal Bergoglio,
e não fizeram por fé católica, porque também há uma coletividade
hebrEia e evangélica muito grande".
"Eu estou feliz - disse - sobretudo porque vai ter um efeito que não é
religioso, porque uma nomeação de tão alto cargo vai levar os olhos do
mundo ao nosso continente, que tem muitos problemas, sobretudo de
injustiças sociais."
"Por enquanto, a nomeação levou um pouco de alegria para a Argentina em
um momento difícil, e tenho certeza de que fará com que olhem para a
nossa região e deixem de pensar que Buenos Aires é a capital do Brasil",
brincou.
Sobre a reunião da véspera entre a presidente argentina Cristina
Kirchner e o papa, na qual o governante pediu ao bispo de Roma que
intermediasse no conflito das Malvinas, Graciela opinou que não acredita
que esta reivindicação "seja agora o principal problema da Argentina,
embora seja coerente. Nosso principal problema é melhorar a distribuição
econômica".
Graciela também disse à Efe que falta muito para melhorar a qualidade
da democracia em um país que entre 1930 e 1983 sofreu sete golpes
militares e um nos últimos 30 anos.
A ex-ministra acredita que já não existe risco de novos golpes
militares em seu país porque "a sociedade já não vê os militares como os
que solucionam os problemas que os políticos não podem resolver".
Fonte: Portal G1


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